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Saindo da superficialidade

Impacto Ambiental: Discurso politiqueiro ou ambiental de fato?


Colunista:

A palavra impacto ambiental está na moda, mas não se engane, impactos podem ser de muitos tipos, com diferentes intensidades e nem sempre são provocados diretamente pelo homem. Veja por que é preciso tomar cuidado com este conceito, saindo do vazio do discurso politiqueiro e substituí-lo por outro, o da “degradação antrópica”, com limites melhor definidos e sem ameaça à liberdade e ao ideal conservacionista.

Impacto Ambiental é a alteração no meio ou em algum de seus componentes por determinada ação ou atividade. Trata-se de um conceito amplo e com muitos significados que é constantemente citado nos meios de comunicação tradicionais e não é por menos, pois vivemos o paradigma da crise ambiental. A expansão agrícola na Amazônia, o tráfico de animais, a poluição de rios e mares, as ilhas de calor urbano e a grande emissão de gás carbônico na atmosfera são exemplos gritantes disso, são impactos de grande intensidade que modificam a dinâmica natural das paisagens, ou seja, modifica o funcionamento dos ecossistemas.

Existem outros impactos ambientais que têm uma intensidade pequena, mas não deixam de ser impactos. Um exemplo vem de nossas atividades na Serra do Mar. Como podem ver no artigo que escrevi sobre As Origens e Evolução da Serra do Mar. Nossas montanhas têm uma herança de um relevo que sofreu ação de tectonismo e ao mesmo tempo tem feições elaboradas em climas tropicais secos, mas está atualmente sobre ação de um clima bastante úmido.  Isso significa que a Serra não está num equilíbrio, é uma paisagem ainda e evolução, pois a erosão é muito grande, basta ver a avalanche que houve no Pico do Taipabuçu com as chuvas dos últimos dois anos.

Quando caminhamos numa trilha, compactamos o solo e ele perde sua permeabilidade. Para piorar, quando o solo está desnudo, sem cobertura vegetal protegendo-o, as gotas da chuva chegam direto nele, provocando o efeito splash, que altera a estrutura superficial do solo, espalhando partículas argilo-minerais que “entopem” os poros deste solo, transformando-o num solo impermeabilizado mesmo que ele tenha naturalmente uma boa permeabilidade. A tendência natural do solo é que a água percole por seus horizontes, mas se ele é impermeabilizado, a tendência passa a ser escoar superficialmente.

Se isso ocorre em uma vertente, esta água se acumula e ganha força, que passa a ser destrutiva e começa a provocar ravinas (como a primeira foto ao lado), que tendem a se aprofundar ao ponto que a água incide, transformando as trilhas em verdadeiras drenagens durante as chuvas.

Este é um impacto ambiental, sem dúvida. Mas é de um impacto pontual (ou linear) e de pouca intensidade, pois ele não altera o funcionamento normal da paisagem, não ameaça espécies vegetais, provocando extinções genéticas. É um problema que advém do aumento de intensidade de um processo natural e também é um problema simples de se resolver, pois no caso basta “quebrar” a energia da água, fazendo que ao invés de remover solo, passe a sedimentar o material carregado.

Há outros impactos muito maiores que não ocorrem com a presença direta do homem, mas que tem uma intensidade muito maior e que causam problemas catastróficos ao ponto de causar extinções e que reduzem o banco genético das paisagens. Usarei o trabalho de Matos & Pivelo (2009), sobre o problema dos bambus e espécies invasoras para exemplificar:

Alguns bambus lenhosos do gênero Guadua como o G. tagoara,G. weberbaueri e G. sarcocarpa, dominam as paisagem florestais onde ocorrem. Na região amazônica, foi observado que a presença dos bambus G. weberbaueri e G. sarcocarpa reduz drasticamente a riqueza de espécies arbóreas, além de diminuir em 50% a biomassa de áreas de terra firme.

Estes bambus ocupam a copa das árvores, comprometendo a chuva de sementes e a regeneração das espécies arbóreas e provocando danos estruturais, levando muitas árvores à morte. A reprodução massiva do bambu pode provocar a abertura de grandes clareiras, favorecendo, o estabelecimento de espécies intolerantes à sombra, além de plântulas de bambu. G. tagoara, mais conhecido como Taquaruçú, que apesar de nativo da Mata Atlântica, é considerado uma espécie potencialmente invasora, dominando extensas áreas de floresta na região Sul e Sudeste do Brasil.

No Parque Nacional da Serra dos Órgãos, como no Parque Estadual Carlos Botelho em São Paulo, o G. tagoara se reproduziu recentemente, provocando a queda de muitas árvores, alterando significativamente a estrutura da vegetação.

Estes impactos ambientais biológicos são muito problemáticos, alteram o funcionamento e a estrutura das paisagens. São impactos intensos e de difícil remediação. Para piorar, estes bambus criam uma rede de raízes e não permitem uma sucessão ecológica, ou seja, as florestas não se regeneram, rompendo com um ciclo natural de evolução de paisagens.

No Paraná, o montanhista Edson Struminski “Du Bois” está tentando erradicar estas espécies nocivas do Morro do Anhangava através de um trabalho árduo, com o uso de facão. Algumas pessoas o criticam, pois acham que ele está “devastando” a vegetação, mas não entendem que ele está fazendo exatamente o contrário, pois eliminar estas poucas espécies significa garantir a existência de muitas outras. Sem demagogia, ele está lutando a favor da biodiversidade, pois substituir uma floresta por algumas espécies de bambu tem exatamente este significado.

O ser humano certamente é um dos principais responsáveis pela expansão de espécies invasoras, seja diretamente, como a introdução destas espécies, ou indireta, através distúrbios causados no meio, como queimadas.

No caso das plantas, são freqüentes causas de invasão biológica o revolvimento ou a fertilização do solo, alterações microclimáticas, ou ainda, a eliminação de espécies indesejáveis, deixando oportunidades de nicho a outras. O sucesso de uma espécie num ambiente novo, a ponto de se tornar invasora, também está diretamente relacionado à semelhança entre o novo ambiente e o local de origem, e ao número de introduções da espécie no novo local. Além disso, plantas que se tornam invasoras geralmente apresentam características que as tornam melhores competidoras, tais como: alta eficiência fotossintética e no uso dos nutrientes (muitas são heliófilas e têm metabolismo C4), altas taxas de crescimento, tolerância ao desfolhamento e herbivoria, alta capacidade de rebrotamento e regeneração, alta capacidade de reprodução (sexuada e vegetativa), ciclo reprodutivo rápido, intensa produção de sementes de fácil dispersão, alta capacidade de germinação.

Como viram, este é um impacto ambiental, mas de ação totalmente biológica. É comum haver este problema em locais aonde os homens não vão, como na própria Serra do Mar e até mesmo em locais protegidos, como é o caso destes Parques Nacionais e Estaduais citados. No caso, o impacto do ser humano erradicando estas espécies invasoras, como faz o Dr. “Du Bois” é desejável, pois garante a manutenção das características originais das paisagens.

Diante desta realidade, qual impacto é maior, a ravina na trilha ou a invasão dos bambus? Veja que o impacto que é maior estéticamente nem sempre é maior ecológicamente. Tenham cuidado!

Entretanto, temos casos que a própria evolução da paisagem leva a processos de extinção natural. Citarei o caso dos campos subtropicais dos planaltos do Sul do Brasil, que eu estudei numa ótica evolucionista tendo as experiências adquiridas através da ciência do quaternário, usando dados geomorfológicos e palinológicos.

Pra quem não sabe, os Planaltos do Sul do Brasil eram originalmente recobertos por Florestas Subtropicais aonde a Araucária (A. angustifolia) abundava. Estas Florestas faziam mosaicos com campos subtropicais, uma cobertura vegetal aberta em total oposição sucessional.

Pra quem não entende, sucessão ecológica é o grau de evolução de uma paisagem. Uma paisagem climax, é a que atingiu o grau de sucessão máximo daquele tipo de paisagem. Na maior parte das paisagens brasileiras as fisionomias climax são as fisionomias florestais e não é diferente nos Planaltos do Sul, mas por que então haveriam tantos locais onde a cobertura vegetal original são campos abertos?

Essa pergunta não é recente. Quem formulou a melhor resposta para esta indagação foi o geógrafo Reinhard Maack, que dentre as várias contribuições às geociências é também um dos fundadores da teoria da Deriva Continental e descobridor do Pico Paraná, num episódio onde a história da Geografia e do montanhismo se funde.

Voltando ao assunto, Maack percebeu que aos poucos, as florestas de Araucária substituiam os campos. Logo ele remeteu a ocorrência de campos, como redutos de vegetação da época mais fria e mais seca da última glaciação. Sendo assim, a tendência natural seria que os campos desaparecessem em detrimento das Florestas. Maack estava certo!

Através de técnicas de identificação de pólens antigos de plantas e datação por Carbono 14, podemos hoje saber quais eram as plantas que habitavam as antigas paisagens, com que freqüência elas ocorriam e quando estiveram lá. Através desta técnica, a equipe do palinólogo alemão Hermann Behling pôde constatar que as florestas de Araucária recobrem os planaltos do Sul há apenas 3 mil anos!

Ou seja, antes disso, até mais de 10 mil anos atrás, todos estes planaltos eram recobertos por campos. Mas qual é a origem desta cobertura vegetal campestre subtropical? Aí entra minha contribuição...

No Estado do Paraná ocorrem ilhas de vegetação de cerrado, afastado milhares de Km da área central da ocorrência deste tipo de vegetação e sob condições climáticas atípicas de sua área core. Estas ilhas de cerrado, localizadas ao longo do rio Laranjinha no Norte Velho do Estado e em Campo Mourão, são redutos antigos deste tipo vegetação que é a mais arcaica do Brasil.

A origem do cerrado é provavelmente remetente ao Terciário. Muito provavelmente ele se originou no Oligoceno, há mais de 30 Milhões de anos atrás.  Na época em que o cerrado se originou, o continente Sulamericano não tinha sua configuração como é a atual. Não existia cordilheira dos Andes, o Amazonas vertia suas águas para o Pacífico e onde hoje é o Paraná era uma faixa de terra tropical, quente com clima sazonal com 6 meses de chuva e 6 meses de seca, ou seja, um clima típico dos atuais cerrados.


Configuração geográfica do planeta no Oligoceno

Durante o Mioceno, ocorreu um evento tectônico que mudou a configuração do continente. A América do Sul girou em seu próprio eixo, jogando para porções subtropicais uma boa faixa de terra anteriormente tropical. Daí a semelhança do relevo dos planaltos do Sul com os Chapadões Interiores do Brasil Central, hoje recobertos por cerrados e penetrados por Matas Galerias.

As áreas ainda hoje ocupadas por cerrados no Paraná antigamente compunham um proto domínio de cerrados oligocênicos, mas por conta da estrutura geológica, solos e de micro climas específicos, estas áreas se tornaram refúgios deste tipo vegetacional, sofrendo retrações em fases de climas desfavoráveis a seu desenvolvimento, mas se expandindo em fases favoráveis, o que lhe deu fôlego diversas vezes na história natural, o que lhe proporcional uma recarga genética fazendo com que estas ilhas de vegetação não fossem substituídas por outro tipo de cobertura vegetal.

Pois bem, o que isso tem a ver com nossos campos sub-tropicais?

Nos campos gerais do Paraná, área típica de campos subtropicais dos Planaltos, numa típica paisagem de mosaico campo x floresta do Domínio Morfoclimático dos Planaltos subtropicais recobertos por Florestas de Araucária, temos mais de 585 espécies típicas de cerrado! No Parque Estadual de Vila Velha é onde ocorre com mais tipicidade estas espécies anômalas, mas sequer há uma fisionomia de cerrado, como ocorre, por exemplo, em Campo Mourão e em Jaguariaíva, onde fica o Parque Estadual do Cerrado.

Isso é um indicativo que em Vila Velha havia um refúgio de cerrado, mas ele está em estágio final de desagregação, sendo recolonizado pelas espécies subtropicais, sobretudo da Floresta Ombrófila Mista, a Floresta de Araucária, que avança sobre os campos.

Muito provavelmente a cobertura vegetal da época em que se formaram as esculturas bizarras de Vila Velha era a de cerrado. O tipo de erosão que formou este relevo atesta a presença de água abundante, mas uma cobertura vegetal ineficiente para proteger o solo, ou seja, uma vegetação de cerrado campestre.

Durante a fase mais seca e fria da glaciação, algumas espécies de cerrado, sobretudo campestres e que não tinham como fator limitante as condições impostas pelo clima, avançaram sobre os planaltos, recolonizando-os e conformando a vegetação de campo subtropical, composto, sobretudo por Poaceas (gramíneas) e Ciperáceas (arbustos).

Isso significa dizer que alguns domínios morfoclimáticos são mais antigos que outros e que nesta história toda, temos um domínio muito antigo (cerrado) e outro bem recente (das Araucárias). Mas peraí, as Araucárias não são uma árvore triássica, um fóssil vivo?

Sim, elas são! As Araucárias são gimnospermas, ou seja, árvores que vieram antes das plantas com frutas. São árvores antigas da época em que surgiram os primeiros dinossauros. É preciso diferenciar a idade da Araucária (um elemento da paisagem) e o domínio de paisagem (uma área de centenas de milhões de Km2 onde ecossistemas integrados se repetem com tipicidade conformando um mega sistema geoecológico).

Digo ainda mais: O Domínio Morfoclimático dos Planaltos das Araucárias é tão jovem, que sequer ele havia atingido um clímax antes der ser inteiramente transformado pelo homem! Por quê?


Domínios Morfoclimáticos do Brasil. Veja a ocorrência das Araucárias e o fato de ser o único domínio que faz divisão linear com outro domínio sem uma faixa de transição

A Araucária é uma árvore que se adaptou muito bem com o clima mesotérmico e pluvial dos planaltos do Sul do Brasil, mas isso não significa que quando a paisagem passa a ser dominada por elas, chegamos à clímax. Isso porque há árvores mais especializadas e de crescimento muito lento que substituem as Araucárias em um estágio mais avançado de sucessão ecológica. São as árvores da família das Lauráceas, as Imbuias, Canelas e Perobas. Mas por que estas Árvores não dominam as paisagens do Sul e as Araucárias são tão abundantes?

As Araucárias se mantiveram na paisagem por conta de intervenções naturais, impactos ambientais naturais que nada tem a ver com a presença humana e decorre por conta do próprio funcionamento da paisagem. O mesmo ocorre com os campos subtropicais, aonde a tendência natural na ausência destes impactos é sua substituição por Florestas de Araucária e estas por florestas de Lauráceas, os ecossistemas mais avançados da Mata Atlântica. Vejam que toda esta evolução da paisagem são impactos ambientais também!

Entretanto, apenas para finalizar meu pensamento, eu faço uma sugestão que quando formos falar em impactos ambientais em montanhas, falemos em “degradação antrópica”, ou seja, delimitemos melhor que tipo de impactos estamos falando. Desta maneira a gente separa aquele que é de interferência humana daqueles naturais, aliás, o planeta terra já passou por 4 mega extinções, a última foi na passagem do Pleistoceno para o Holoceno, durante esta glaciação que eu estudei, que levou ao fim, por exemplo, a existência de mamíferos gigantes na América do Sul.

Melhor ainda, vamos concentrar nossos esforços nas ações da degradação antrópica de grande intensidade, aquelas que eu cito na abertura deste artigo. Certamente elas são as que ameaçam de fato a humanidade e não aquelas pontuais em nossos parques e montanhas. Não sejamos bobos, o discurso para combater estes pequenos impactos são somente políticos. Não devemos dar destaque à estas picuinhas e muito menos à estas pessoas, pois dando relevância à esta pequinês estamos apenas dando bola às idéias preservacionistas suicidas e conseqüentemente proibicionistas à própria existência do montanhismo como esporte e cultura.

Para saber mais:

AB´SÁBER, A.N; Degradação da Natureza por processos antrópicos, na visão dos geógrafos. Inter Fácies: Escritos e Documentos. UNESP-IBILCE (106) 1982.

HAUCK, P.  A Teoria dos Refúgios Florestais e sua relação com a extinção da Megafauna Pleistocênica: Um estudo de caso. Estudos Geográficos: Revista Eletrônica de Geografia [Online] 5:1. 2008 Mar 19. Disponível: http://cecemca.rc.unesp.br/ojs/index.php/estgeo/article/view/1021

HAUCK, P.; PASSOS, E.. A paisagem de Vila Velha e seu significado para a Teoria dos Refúgios e a evolução do domínio morfoclimático dos Planaltos das Araucárias. RA´E GA - O Espaço Geográfico em Análise, América do Sul, 19 29 04 2010. Disponível: http://ojs.c3sl.ufpr.br/ojs2/index.php/raega/article/view/15983/11422

MATOS, Dalva M. Silva; PIVELLO, Vânia R.. O impacto das plantas invasoras nos recursos naturais de ambientes terrestres: alguns casos brasileiros. Cienc. Cult.,  São Paulo,  v. 61,  n. 1,   2009 .   Disponível em: http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0009-67252009000100012&lng=en&nrm=iso

Tauki, Sâmia Maria. Análise Ambiental: Uma visão multidisciplinar. Editora Unesp, 206 pg.

TRICART, J. Ecodinâmica, Rio de Janeiro, IBGE-. SUPREN, (Recursos Naturais e Meio Ambiente), 1977. 91 p.




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